Na rotina escolar, algumas mudanças chamam a atenção. Um aluno que costumava participar das aulas fica mais quieto. Outro passa a evitar determinadas atividades ou deixa de estar próximo dos colegas. Há também aquele estudante que, em uma conversa aparentemente comum, procura o professor e diz que não está bem.
Situações assim não significam, por si só, que exista um problema de saúde mental, mas mostram por que o assunto merece espaço na escola.
O Setembro Amarelo na escola pode ser uma oportunidade para tratar desse tema com cuidado, usando uma linguagem adequada à idade e atividades que façam sentido para os estudantes.
O objetivo de envolver a comunidade escolar nesse mês vai além do calendário de conscientização: trata-se de instrumentalizar estudantes para reconhecer sinais de sofrimento, identificar canais de apoio e saber a quem recorrer.
Os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, do IBGE, ajudam a dimensionar esse cenário. Entre os estudantes brasileiros de 13 a 17 anos, 28,9% disseram ter sentido tristeza na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa. O percentual foi de 41,0% entre as meninas e de 16,7% entre os meninos.
O dado não transforma a escola em responsável pelo atendimento dessas situações.
O papel da escola é outro: observar o cotidiano, oferecer informações adequadas, saber escutar e ter um caminho definido para encaminhar o estudante para atendimento profissional quando for necessário.
Origem do Setembro Amarelo
A origem do Setembro Amarelo está ligada à história de Mike Emme, um jovem norte-americano de 17 anos que cometeu suicídio em 1994. Seus pais, em meio ao luto, distribuíram cartões com fitas amarelas e mensagens de apoio a pessoas que precisassem de ajuda.
A iniciativa ganhou visibilidade e passou a inspirar ações de conscientização em outros lugares.
No Brasil, a campanha começou a ser promovida em 2013 pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), com participação posterior do Centro de Valorização da Vida (CVV).
Na escola, porém, levar o tema para a sala de aula exige alguns cuidados. A abordagem precisa considerar a idade dos estudantes, evitar exposição desnecessária e estar acompanhada de orientações claras sobre o que fazer caso alguém peça ajuda.
É importante consultar também a Carta aos Pais, Responsáveis e Educadores, um documento específico com orientações, criado pela ABP e CFM para o Setembro Amarelo.
7 atividades para o Setembro Amarelo na escola

Nem toda ação precisa ter o mesmo formato. Uma turma pode trabalhar o assunto a partir de uma situação fictícia; outra pode desenvolver um projeto de criação; em determinada faixa etária, uma atividade digital pode funcionar melhor.
O importante é que a proposta tenha uma finalidade definida e que o professor saiba como conduzir possíveis dúvidas ou manifestações dos alunos.
Outro resultado da PeNSE 2024 merece atenção: 18,5% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram ter sentido, na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa, que “a vida não vale a pena ser vivida”.
É um dado que precisa ser apresentado com responsabilidade. A escola não deve utilizar esse tipo de informação para causar impacto ou medo, mas para reforçar a necessidade de orientação, escuta e acesso aos canais de ajuda.
Questões que fazem parte da vida escolar, como o cyberbullying, também podem entrar nessa conversa.
1. Mural das emoções
Um mural pode ser uma forma simples de começar a conversa, desde que a proposta não obrigue ninguém a revelar algo pessoal.
Em vez de perguntar diretamente “como você está se sentindo?”, o professor pode trabalhar com questões como “O que ajuda você a enfrentar um dia difícil?” ou “A quem você recorreria se precisasse de ajuda?”.
Outra possibilidade é apresentar uma situação fictícia e pedir que os alunos escrevam o que o personagem poderia fazer diante daquele problema. As respostas podem aparecer em frases, palavras, desenhos ou colagens.
Depois, o professor pode usar algumas delas para discutir diferentes formas de lidar com dificuldades e identificar adultos de confiança ou serviços que podem oferecer ajuda.
Há, ainda, uma questão prática: onde esse mural ficará?
Se estiver em um espaço aberto da escola, não é adequado publicar nomes ou respostas que permitam descobrir quem escreveu determinada mensagem.

2. Atividades online
Uma atividade digital funciona melhor quando vem acompanhada de uma pergunta clara. O professor pode, por exemplo, propor uma vídeo experiência e depois pedir que a turma identifique as decisões tomadas pelos personagens, discuta uma situação de convivência ou pense em maneiras de pedir ajuda.
Esses recursos podem entrar em diferentes momentos do planejamento. Um questionário pode ser utilizado depois de uma discussão, por exemplo, enquanto uma vídeo experiência pode servir como ponto de partida para uma atividade em grupo.
3. Cartões de afeto
A atividade pode começar com um convite simples: escrever uma mensagem para alguém da comunidade escolar.
Pode ser um agradecimento, um reconhecimento ou uma lembrança de uma situação em que aquele colega ajudou o grupo. Uma frase como “gostei de trabalhar com você porque você sempre ajuda quando alguém tem dificuldade” já abre espaço para uma conversa sobre convivência.
Depois da entrega, o professor pode retomar algumas situações mencionadas pelos estudantes. A turma pode discutir, por exemplo, o que significa incluir um colega em uma atividade, perceber quando alguém precisa de ajuda ou respeitar uma maneira diferente de pensar.
Os cartões podem ser feitos à mão ou em formato digital. O foco está no acolhimento escolar e na comunicação entre os alunos e na reflexão sobre as relações que fazem parte da vida escolar, não em transformar a dinâmica em uma intervenção de saúde mental.
4. Palestra interativa
Uma palestra sobre saúde mental tende a funcionar melhor quando os estudantes conseguem relacionar o conteúdo ao que vivem.
Com crianças, a conversa pode partir de situações como pedir ajuda a um adulto de confiança ou perceber que um colega está enfrentando alguma dificuldade. Com adolescentes, o debate pode incluir pressão escolar, relações sociais, cyberbullying e caminhos para procurar atendimento.
O conteúdo deve ser preparado a partir de fontes especializadas e adequado à faixa etária. Se houver um profissional convidado, também vale combinar previamente como serão tratadas perguntas mais delicadas.
Esse planejamento é importante porque um estudante pode procurar ajuda durante ou depois da palestra. A equipe precisa saber quem fará o primeiro atendimento, quando a família será acionada e quais serviços poderão receber o encaminhamento.
A palestra tem finalidade estritamente educativa e de orientação preventiva para a comunidade escolar.
5. Oficina criativa
A tecnologia pode entrar no Setembro Amarelo por meio de um desafio que tenha relação com situações vividas pelos próprios estudantes. O professor pode propor uma atividade que vá além da produção de cartazes, perguntando que solução podem criar para tornar mais fácil pedir ajuda ou melhorar a convivência entre os alunos, por exemplo.
A partir da pergunta, os grupos podem escolher um problema para investigar. Uma equipe pode pensar em uma solução para orientar um aluno que não sabe a quem recorrer dentro da escola. Outra pode criar uma proposta para melhorar a comunicação entre colegas ou desenvolver uma ideia para tornar determinado espaço da escola mais convidativo à convivência.
Com a Robotis, esses desafios podem ganhar uma dimensão prática por meio da robótica e do STEAM. Os estudantes podem planejar, montar, testar e modificar seus projetos, discutindo entre si por que determinada solução funciona ou precisa ser alterada.
Já o Nexis permite ampliar esse tipo de proposta com atividades que envolvem robótica, programação e inteligência artificial. Um desafio pode, por exemplo, levar os alunos a pensar em como uma solução tecnológica poderia orientar alguém dentro de um fluxo de atendimento da escola ou organizar informações para facilitar determinada tarefa.
O foco não está em transformar a oficina em uma intervenção sobre saúde mental.
A proposta é usar um problema concreto como ponto de partida para investigar, criar, testar e apresentar uma solução. Durante esse percurso, o professor consegue trabalhar conteúdos de tecnologia ao mesmo tempo que abre espaço para discutir colaboração, tomada de decisão e responsabilidade nas relações escolares.
6. Bate-papo com pais e professores
Um diálogo aberto entre escola e família, com a presença de especialistas pode partir de situações bastante concretas. O professor percebe que um aluno deixou de participar das atividades. Os pais notam uma mudança importante na rotina. O adolescente se isola e não quer explicar o motivo.
O encontro pode discutir justamente como agir diante desses sinais: quando conversar, quem procurar na escola, como compartilhar uma preocupação com a família e em que momento buscar atendimento especializado.
Também é importante explicar o fluxo da própria instituição. Os responsáveis precisam saber quem é o profissional de referência, como uma situação pode ser comunicada e quais serviços externos fazem parte da rede disponível.
Professores e gestores atuam como uma ponte de escuta ativa e observação diária junto às famílias.
7. Roda de conversa

Uma atividade em que os alunos podem se reunir para falar abertamente sobre suas emoções e ouvir o que os colegas têm a dizer é uma estratégia saudável para promover um ambiente de acolhimento.
A estratégia também ajuda a melhorar o clima escolar, reforçando a confiança entre alunos e instituição.
Uma roda de conversa sobre saúde mental não precisa começar com “conte algo que aconteceu com você”. Em um tema delicado, esse tipo de convite pode colocar o estudante em uma situação de exposição.
Uma alternativa é trabalhar com histórias fictícias.
Imagine, por exemplo, um aluno que percebe que seu amigo está mais quieto, deixou de participar das atividades e parece diferente do habitual. A pergunta para a turma pode ser: o que esse colega poderia fazer?
As respostas podem incluir conversar com o amigo, procurar um professor, avisar um adulto responsável ou buscar outro canal de ajuda. A discussão acontece sem que ninguém precise contar uma experiência própria.
Os estudantes se sentem à vontade para compartilhar suas experiências e apoiar uns aos outros em grupos de discussão, mediados por um professor ou psicólogo para guiar a conversa e garantir que todos se sintam incluídos.
A participação deve ser voluntária. Também vale combinar antes algumas regras básicas: não interromper, não ridicularizar respostas e não divulgar fora da sala aquilo que outro estudante decidir compartilhar.
Acompanhamento do desenvolvimento socioemocional
É importante verificar o progresso dos estudantes no desenvolvimento de competências socioemocionais.
Só assim a escola vai descobrir se as estratégias de educação socioemocional estão sendo bem-sucedidas, incluindo as ações do Setembro Amarelo. Assim, depois de setembro, o trabalho com essas questões não precisa desaparecer da rotina da escola.
A equipe pode registrar o que apareceu durante as atividades: quais assuntos geraram mais perguntas, em quais propostas houve maior participação, que temas precisaram ser retomados e se alguma situação exigiu encaminhamento.
Essas informações ajudam a decidir o que merece voltar ao planejamento. Uma turma que apresentou muitas dúvidas sobre convivência digital, por exemplo, pode receber novas atividades sobre cyberbullying. Outra que demonstrou dificuldade em discutir conflitos pode trabalhar o tema em projetos posteriores.
Também é preciso reconhecer os limites dos relatórios e o papel que eles podem exercer no contexto escolar. Os relatórios complementam a observação pedagógica, servindo de base para que a escola acolha, oriente e encaminhe casos que exijam suporte externo especializado.
Se a escola procura recursos para organizar esse acompanhamento e integrar o trabalho socioemocional ao planejamento pedagógico, conheça as possibilidades das Soluções do Educacional.
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FAQ – Setembro Amarelo
1. Como abordar o Setembro Amarelo com crianças e adolescentes na escola?
A abordagem deve acompanhar a idade dos estudantes e partir de situações que façam parte da realidade escolar. É possível conversar sobre sentimentos, convivência, valorização da vida, formas de pedir ajuda e pessoas ou serviços que podem ser procurados. A escola deve evitar detalhes sobre métodos de suicídio ou automutilação.
2. Quais cuidados a escola deve ter ao falar sobre suicídio com os estudantes?
É importante trabalhar com fontes especializadas, evitar uma abordagem sensacionalista e não expor os estudantes. A equipe também deve definir antes da atividade o que fazer caso algum aluno procure ajuda ou manifeste sofrimento.
3. Como a escola deve agir quando um aluno demonstra sinais de sofrimento emocional?
A equipe deve ouvir o estudante sem julgamentos e seguir o fluxo definido pela instituição. Dependendo da situação, isso pode envolver responsáveis, profissionais da própria escola e serviços especializados. Professores e gestores não devem tentar estabelecer diagnósticos.
4. Como envolver as famílias nas ações de saúde mental da escola?
Reuniões podem abordar situações observadas no cotidiano, formas de conversar com crianças e adolescentes e os canais disponíveis para buscar ajuda. Também é importante deixar claro quem deve ser procurado dentro da escola quando surgir uma preocupação.
5. Quem pode conduzir atividades sobre saúde mental e Setembro Amarelo na escola?
Educadores podem desenvolver atividades pedagógicas sobre convivência, expressão, informação e reflexão. Quando a proposta envolver conteúdos clínicos ou questões específicas de saúde mental, a participação de profissionais especializados pode contribuir para uma abordagem adequada.
6. Como criar uma rede de apoio para a saúde mental dos estudantes?
Primeiro, a escola precisa definir responsabilidades e caminhos de encaminhamento. É importante saber quem recebe uma demanda, quem conversa com a família, quais profissionais podem ser acionados e quais serviços externos estão disponíveis. As atividades pedagógicas complementam esse trabalho, mas não substituem atendimento especializado.
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